Imigrantes na estrada da Venezuela em direção a Pacaraima, Brasil - Jorge William / Agência O Globo

Venezuelanos encaram fome, sede e dor na travessia rumo ao Brasil

Como é a caminhada de 200 quilômetros dos venezuelanos que decidiram fugir da crise social de seu país em busca de uma vida melhor

BOA VISTA — São 11 horas da manhã em Pacaraima, última cidade brasileira na fronteira com a Venezuela. Carregando sacolas com roupas, comida e alguns pertences, 500 venezuelanos se preparam para fazer a travessia até Boa Vista, que pode demorar oito dias. É uma rota de 200 quilômetros, por onde grupos de pessoas fogem da fome, do desabastecimento e da inflação que assola o país governado por Nicolás Maduro.

A passagem de ônibus de Pacaraima até a capital de Roraima custa R$ 30, em média, mas boa parte dos imigrantes não tem dinheiro para pagar pelo trajeto. Seguem a pé. O principal destino é a praça Simón Bolívar, na região central de Boa Vista, que abriga o maior acampamento de venezuelanos no Brasil. No local, imigrantes dormem amontoados sobre sacos plásticos e pedaços de papelão, à espera de alguma amparo do governo brasileiro

O GLOBO percorreu a rota da imigração na última sexta-feira. Encontrou um cenário onde predominam a fome, a sede e a dor. O núcleo de imigração da Polícia Federal que atua em Pacaraima diz que, em média, 700 venezuelanos têm cruzado a fronteira, por dia, em direção a Boa Vista. Em 2015, quando a crise econômica e política na Venezuela ainda não era tão aguda, a média diária não chegava a 40 venezuelanos em fuga.

Assim que recebem autorização para entrar no Brasil — procedimento simples, em função de tratados internacionais que facilitam o processo — os refugiados se dividem em grupos de três a 15 pessoas. É uma estratégia de autoproteção para enfrentar as grandes retas da BR-174, em direção a Boa Vista. A rota fica numa região conhecida como lavrado ou savana de Roraima. A paisagem é monótona e erma.

O primeiro trecho a ser vencido pelos imigrantes é uma barreira formada por homens do Exército, da Polícia Rodoviária Federal e da Polícia Militar. A força-tarefa foi montada recentemente pelo governo de Roraima.

Os venezuelanos descartam, nas laterais desse primeiro trecho, tudo o que poderia ser considerado ilícito pela barreira brasileira — desde alimentos (por causa de questões fitossanitárias) até objetos pessoais que eventualmente poderiam ser caracterizados como contrabando.

Litros de água com açúcar

Era tarde de sexta-feira, às 15h, quando uma chuva torrencial começou a cair em Pacaraima. Os refugiados, mesmo com as roupas e pertences encharcados, não desaceleraram os passos rumo a Boa Vista. Vencido o primeiro quilômetro, os imigrantes que não têm dinheiro para ir de ônibus se dividem em grupos que vão seguir em cima de caminhões e outros que vão a pé. Para quem faz a caminhada, os primeiros 20 quilômetros são percorridos sobre um terreno acidentado, vias sem acostamento e trechos de floresta.

Muitos desistem, por causa da fome e da desidratação, e montam acampamento na beira da pista à espera de carona. Foi a decisão tomada pelos irmãos Jindher Sahir, de 24 anos, Carlos Andrés Velasques, de 21, e a amiga deles, Marisol, de 18. Eles demoraram mais de um dia para percorrer menos de 25 quilômetros e desistiram. Há dois dias, dormiam sob um casebre de palha em busca de carona. Alimentavam-se da cata de castanha e de cachos de banana verde que achavam na floresta nativa.

Todo o alimento coletado foi colocado dentro de um saco plástico, que o grupo se reveza para carregar. O último cacho de banana, apesar de estar muito verde, não foi deixado para trás.

— Vamos segurar ele conosco por mais dois ou três dias até ficar menos verde — conta Andrés, com semblante abatido.

O trio saiu de Valencia, Região Metropolitana de Caracas, em busca de emprego no ramo da construção civil no Brasil. O dinheiro acabou antes de eles chegarem na fronteira. Por isso, resolveram seguir a pé junto com outros grupos de imigrantes. Assim como os demais refugiados, o trio leva consigo litros de água misturada com açúcar. É uma espécie de estratégia desenvolvida pelos imigrantes para enganar a fome e a sede.

Nos primeiros 13 quilômetros da rota, o único estabelecimento encontrado no caminho é uma escola rural. É lá que os grupos param para pedir água. Vinte quilômetros mais à frente, entram em território indígena, que virou ponto para pedir alimentos como banana e abóbora.

Foi nesse trecho que a reportagem encontrou o operador de máquinas Júlio Cesar, de 34 anos, que deixou dois filhos e a mulher na Venezuela para tentar emprego no Brasil. A essa altura, o venezuelano já havia caminhado dois dias, mas ainda não tinha completado nem 25% do trajeto.

— Já desistimos de pedir carona. Decidimos fazer todo o trajeto a pé, pois toda carona negada dá uma aperto no coração. As pessoas desconfiam da gente — lamenta.

José Vilarana, pedreiro de 26 anos, estava no mesmo grupo que Cesar. Diz que desistiu do país de Maduro depois que seu salário não dava para comprar comida suficiente para alimentar seus três filhos:

— Mesmo se fosse comer só arroz, por todo o mês, meu rendimento não dava para pagar. Vim trabalhar para sustentar minha família. Nosso governo já não serve mais. Está morto. Trabalhava dia e noite, e o dinheiro não dava para comer — relata o pedreiro.

Jindhee Sahir, Marisol e Carlos Andrés, imigrantes na estrada em direção a Pacaraima – Jorge William / Agência O Globo

“Bate um desespero”

De meia em meia hora, o grupo dá uma pausa na caminhada para descansar embaixo de alguma árvore. Dão mais alguns goles de água com açúcar e voltam a apertar o passo.

— Quando vemos uma casa na beira da estrada bate uma alegria, porque é a chance de pedir alguma comida. Mas às vezes demora 10, 15 horas de caminhada e não vemos sinal de vida. Além da fome bate um desespero — completa Cesar.

Outro que acompanha o grupo, Leonardo, de 26 anos, prefere fazer do tempo de conversa com a reportagem uma saraivada de críticas ao governo Maduro. Chefe de cozinha desempregado na Venezuela, ele tenta emprego em algum restaurante do Norte do Brasil.

— Queremos que o governo Maduro acabe para a gente poder voltar. Enquanto não acabar, vamos tentar a vida no Brasil — desabafa.

A saga dos imigrantes começa antes mesmo da fronteira com o Brasil, no pequeno município de Santa Elena. Na saída da cidade, eles cruzam com um outdoor que estampa a imagem de Nicolás Maduro desejando, ironicamente, bom regresso ao povo venezuelano. A placa é antiga, desbotada, e certamente foi fincada no local bem antes da crise migratória se intensifica.

Última cidade do lado venezuelano da fronteira, o local virou a porta de saída para o Brasil. É lá que grupos se organizam para fazer a travessia, seja por rotas legais ou ilegais. A PF já sabe que a barreira não é capaz de conter o fluxo clandestino de pessoas e produtos.

A entrada clandestina é feita geralmente por imigrantes que respondem a processos na Justiça ou que já violaram alguma lei brasileira. Eles entram no país por trilhas e estradas vicinais.

O descompasso entre os números de imigrantes apresentados pela PF e pela prefeitura de Boa Vista ajuda a explicar essa situação. Segundo o município, entram por dia em território brasileiro 1,5 mil imigrantes por meio da rota de Pacaraima. No posto de imigração da PF, no entanto, uma média diária de 700 venezuelanos declaram entrada no Brasil. As outras 800 entradas seriam feitas de maneira “não declarada” às autoridades brasileiras.