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Cuiabá 300 anos > Cruz Preta: símbolo religioso, cultural, místico e… curioso

Por Edileuza Faria*

 

Ao nos deparamos com ela, é impossível não nos rendermos aos sentimentos que nos causa, inclusive curiosidade e estranheza pelo local onde se encontra.

Fincada numa calçada, entre residências, comércios, pedestres e árvores, há tempos que a Cruz Preta compõe a paisagem cotidiana do Bairro, que popularmente leva seu nome Cruz Preta, no Centro Sul de Cuiabá.

Num primeiro momento, a Cruz chama a atenção… para chegar até ela, tem que subir três degraus…sua base de concreto, pintada com tinta preta. Aos pés da Cruz é possível ver restos de velas queimadas. Na cultura cristã, e nas crenças individuais de cada pessoa, o ato de acender velas está presente nas manifestações de fé, e nos rituais. E são muitos os motivos que levam as pessoas a acender velas…pode ser para o fortalecimento da fé… um agradecimento…devoções…ou para algum ente querido…

Nos dias atuais, a intolerância religiosa é uma realidade. Mas, um fato chama a atenção, e ao mesmo tempo, é um exemplo de respeito, diplomacia e tolerância religiosa. A Cruz fica ao lado de uma residência. A moradora que não quis se identificar, é evangélica, e reside no local há mais de 23 anos, “quando vim morar aqui era só mato, existiam poucas casas, mas a Cruz que era de madeira já estava aqui. Por eu ser evangélica, e ter uma Cruz na minha porta, isso nunca me incomodou, respeito todas as crenças, inclusive quando tem festa religiosa para homenagear a Cruz, eu apoio”, destaca a aposentada com um olhar fraternal para a Cruz.

Não se sabe ao certo sobre a verdadeira origem da Cruz Preta, e nem de como foi parar ali. Existem algumas versões, e relatos de moradores mais antigos da região, que repetem as histórias que um dia eles também escutaram dos mais velhos. “Aqui vem muita gente querendo saber sobre a Cruz, a versão que eu acredito ser a certa, é que antigamente, aqui era uma enorme fazenda, e os escravos fincaram a Cruz para realizar suas manifestações religiosas, para cultuar e oferendar seus santos, e a Cruz que era de madeira aqui ficou, e hoje é um patrimônio histórico”, finaliza a moradora.

Outra descrição popular sobre a existência   da   Cruz, seria devido a Lei Áurea, sancionada pela princesa Isabel, que pôs fim a escravidão no Brasil, em 13 de maio de 1888. A permanência da Cruz Preta no local, é a manifestação viva da resistência e luta dos negros contra a escravidão.

Entre tantas versões sobre a origem da Cruz Preta, o fato é que ao longo dos anos, e apesar das transformações ocorridas no tempo, a permanência da Cruz no local tem contribuído para o fortalecimento dos laços de pertencimento e identidade dos moradores com o lugar. Mais do que isso, independente da crença religiosa de cada morador, hoje a Cruz é um “símbolo do sincretismo religioso” da comunidade.

E para dar continuidade em toda a historicidade que envolve a Cruz Preta, todos os anos, moradores e comerciantes da região se reúnem para festejar a Santa Cruz no dia (03/05). O evento conta com celebração de missa campal e quermesse.  A comida é servida de graça para as pessoas. Todavia, por ser uma comemoração popular religiosa, a data (03/05), é diferente do calendário oficial da igreja católica, cujo dia da Santa Cruz é celebrado pelos católicos em 14 de setembro.

O Vizinho mais antigo da Cruz

A casa fica a poucos passos da Cruz Preta.  Apesar de alguns reparos na fachada, a casa possui traços dos antigos casarios de Cuiabá, com portas e janelas de madeira. A estrutura de adobe, o piso, e o telhado de taquara, coberto com antigas telhas de barro, dão a impressão de que ali o tempo parou…Além do mais, o ambiente transmite um clima de melancolia nostalgia, e faz a gente dar um passeio no passado, e imaginar como era a simplicidade da vida cotidiana, dos moradores da Cuiabá de outrora.

Os móveis da casa são resumidos, e estão cobertos por um alegre forro azul claro, com estampas divertidas…talvez seja para animar os dias do único morador da casa, o aposentado Alvino Correia Lima, 84 anos, considerado o morador mais antigo do lugar. Toda sua vida foi vivida ali, com seus pais e irmãos, “essa casa deve ter mais de 100 anos, aqui morou minha vó e minha mãe. Olha lá na parede no quadro, é minha mãe”, sinaliza Alvino com um leve balanço de cabeça, para um retrato em preto e branco de uma mulher, emoldurada e pendurada na desbotada parede de adobe.  Observo que o retrato divide espaço com calendários e ilustrações de outros tempos…

O aposentado nunca casou. As mudanças do tempo passaram bem diante da sua janela. Hoje o corpo sente as limitações da idade… Parece que tudo ao seu redor é perigoso… O olhar cansado…outras vezes distantes e vazios… os passos são lentos…o medo de cair é constante, e boa parte do dia, fica sentado ou deitado…a fala é mansa e pouca…as mãos tremulas e os dedos enrijecidos, omitem a habilidade que o aposentado exercia no ofício de alfaiate. Tecidos, tesoura, linhas e agulhas, por longos anos foram seus fiéis companheiros, “eu costurei muito. Aqui vinha gente de todo lugar trazer pano para eu costurar”, diz Alvino, ao me mostrar a paralisia dos dedos das mãos.

A Cruz Preta sempre esteve presente na vida e nas lembranças do aposentado, mas suas recordações, parecem que não se encaixam com os dias atuais. “Vovó realizava festas religiosas.  A casa vivia cheia de gente. A primeira festa era de São Sebastião, celebrada no dia 20 de janeiro.  Depois era a vez da festa da Santa Cruz. Antigamente, apesar das dificuldades, a demonstração de fé e devoção das pessoas era mais fervorosa, e sempre sobrava um ‘bererê’ (dinheiro) para ajudar nos festejos. As pessoas ajudavam como podia, essa era a realidade”, conclui.

A solidão dos dias sempre é interrompida por algum morador (vizinho) ou amigos do aposentado, que solidários chegam até sua janela, ou batem na porta para saber como ele está. E de alguma forma, prestam alguma ajuda. Duas   vezes por dia, a sobrinha que mora próximo leva as refeições. Da parede a mãe copiosa lhe faz companhia pelo velho retrato…

Edileuza Faria é Jornalista e Bacharel em Direito