Rapadura: A doce vida

O gosto doce da cidade está na zona rural, nos antigos engenhos que produzem a rapadura. No centro da comunidade, é melhor deixar o sabor de lado e escolher a visão como principal sentido. Assim como o vapor doce impregna o nariz, as antigas construções ribeirinhas com sua igreja, moradias e peixarias inundam os olhos dos que passeiam sem pressa pelas ruas de Bonsucesso, distrito de Várzea Grande, que tem na sua culinária e costumes o maior dos patrimônios: a tradição.

 Bonsucesso mantém viva a tradição do doce de cana-de-açúcar, alimento que acompanha a memória dos mais antigos. “Nunca faltou rapadura após um bom peixe”, afirmava a saldosa Belmira Gonçalves Fortes, conhecida por Dona Buguela, e “entre um trabalho e outro uma lasca açucarada ajuda a recuperar a energia”, aconselhava Sinesio Picornio da Silva, o seo Sinésio. Dois mestres conhecidos pelos engenhos que há várias décadas adoçam a vida de quem frequenta Bonsucesso.

Impregnados de memória, começam o dia, ainda escuro, já moendo o caldo turvo da cana, espalhando o vapor melado. A cada tacho pode ser retirado um diferente produto, antes de se chegar, finalmente, ao tablete de rapadura. O líquido grosso após as primeiras fervuras constitui o melaço, ou mel de cana; endurece um pouco e vem o puxa; depois, o requintado alfenim; a batida, com seu aroma de cravo; e, por fim, a rapadura. O processo, manual, emprega em seu feitio o trabalho dedicado de um mestre e ajudantes que percebem o ponto, limpam meticulosamente os resíduos de cera e bagaço, até transformar a colheita do canavial na barra açucarada que conhecemos tão bem. Tanto as máquinas como o processo de fabricação representam o respeito pela tradição que ambos passaram para seus filhos.

 Alimento simples, feito com um único ingrediente, a rapadura chega a ser vítima de preconceito em virtude de raízes tão populares. Mas é nobre. Nobre na grande quantidade de vitaminas, e, ironicamente, já conquistou a alta gastronomia. Fora do Brasil, a rapadura também tem chamado a atenção. Em Bonsucesso, os mais simples não tem dúvidas dos seus benefícios à saúde e à alma. O artesanato, como chamam a fabricação de doces na localidade, serve “pra adoçar a vida”.

Texto: Rafaela Maximiano